Sem perder a ternura

Marcelo Bonvicino*
Estive em Cuba, na cidade de Havana e no município de Trinidad, na segunda quinzena de julho deste ano. Em Trinidad, há uma das praias mais belas do arquipélago, a cidade é tombada pela ONU por ser patrimônio histórico da humanidade. Fiquei no país por 10 dias. Éramos nove pessoas, jovens e mais velhos, meu irmão, minha mãe e amigos.
Nos primeiros dois dias, andamos por Havana interessados em conhecer sua vida cultural. Passamos por museus, os famosos restaurantes paladares – oferecidos por famílias cubanas com a permissão do governo –, bares com música ao vivo, sebos, lojas e festas tradicionais.
Nos aproximamos das pessoas para conhecer seu cotidiano [até onde um estrangeiro pode conhecer] e seus hábitos.
Cuba vive sob um regime socialista, estabelecido a partir de 1959. Naquele ano, um grupo de jovens intelectuais e revolucionários, liderados por Fidel Castro, derrubou o ditador Fulgêncio Baptista, que privilegiava os interesses do capital estrangeiro e da elite latifundiária, produtora de cana-de-açúcar e tabaco.
Entre os revolucionários estava Ernesto “Che” Guevara, que se tornou um ícone por todo o mundo. Ao seu lado, o menos conhecido – mas não menos importante – Camilo Cienfuegos, estudante de artes plásticas que pertencia ao movimento estudantil e foi um grande parceiro de Guevara. A juventude cubana de hoje cresceu com os valores instaurados pelo regime de Fidel Castro, o que, em muitos aspectos, é bastante positivo: eles baseiam-se na igualdade social, na educação de qualidade para todos e no princípio da dignidade. Os maiores símbolos, portanto, para estes jovens, são os heróis revolucionários e a arte tradicional do país. Tive a oportunidade de conhecer muitos estudantes de artes e comunicação nessa viagem.
Sem vestibular - Embora o país esteja muito aberto aos turistas nos últimos anos, por conta da dependência econômica local em relação a essa atividade, o intercâmbio da população com estrangeiros é dificultado.
Cuba tem um sistema educacional de qualidade: a taxa de analfabetismo é de 6,2% e o nosso maior inimigo, em termos de educação pública, o vestibular, não existe. Há, para todos os estudantes, vagas nas melhores universidades do país.
Mas a dificuldade do intercâmbio se deve às barreiras geradas pelo governo. A idéia é evitar o choque de classes entre os cubanos, que vivem em condições materiais difíceis, e os turistas, que têm uma vida mais rica, materialmente falando [ao menos os que vão para lá, já que esta é uma viagem cara]. O governo de Cuba quer evitar um possível interesse por parte dos cubanos de migrar do arquipélago. Isso também é uma medida contra o turismo sexual, que já foi um grande problema social naquele país.
A polícia cubana é sempre muito dura e repressiva com as pessoas locais. Os policiais dizem que querem preservar a “tranqüilidade” dos turistas, já que o país depende do turismo. Também ouvi de alguns policiais frases como “por aí tem muito malandro”. Turistas e cubanos de sexos opostos não podem estar juntos por muito tempo, como ocorreu conosco, em Trinidad.
Marcelo Bonvicino, 19, é poeta e estudante da Universidade de São Paulo












